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Morto por bolsonarista, capoeirista é enterrado aos gritos de 'EleNão'

Morto por bolsonarista, capoeirista é enterrado aos gritos de 'EleNão'

O enterro de Mestre Moa do Katendê, morto brutalmente a facadas por um bolsonarista, aconteceu sob forte emoção no fim da tarde desta segunda (8); Mestre Moa foi enterrada sob gritos de "EleNão", referência ao movimento contra Bolsonaro, o #EleNão, e acompanhado por cantos-pontos da capoeira e das religiões afro: "Olha o negro, sinhá/Mataram o negro!" e "Ôooooo, a liberdade pela cidade"; Caetano Veloso, Daniela Mercury e outros artistas repudiaram o assassinato e destacaram a relevância de Mestre Moa na cultura baiana; o governador Rui Costa exigiu apuração rigorosa

247 - O enterro do grande mestre baiano de capoeira e compositor Romualdo Rosário da Costa, 63 anos, o Mestre Moa do Katendê, morto brutalmente a facadas por um bolsonarista, aconteceu na tarde desta segunda (8) em Salvador. A cerimônia, no cemitério Quinta dos Lázaros, no bairro da Baixa de Quintas, aconteceu sob forte emoção, a partir de 17h. Assassinado na madrugada da própria segunda, Mestre Moa foi enterrada sob gritos de "EleNão", referência ao movimento contra Bolsonaro, o #EleNão, e acompanhado por cantos-pontos da capoeira e das religiões afro: "Olha o negro, sinhá/Mataram o negro!" e "Ôooooo, a liberdade pela cidade".

O crime ocorreu no Bar do João, na comunidade do Dique Pequeno, no Dique do Tororó, em Salvador (aqui) e foi o mais grave de uma série de ataques perpetrados por apoiadores de Bolsonaro em várias cidades do país (aqui).

Sob forte comoção, mais de 500 amigos e admiradores acompanharam o enterro de Mestre Moa, uma referência cultural na cidade e no país e um importante disseminador de manifestações culturais afro-brasileiras. 

Caetano Veloso compartilhou em sua conta no Instagram o vídeo de uma entrevista com ele e Moa do Katendê, de 2011, e escreveu: "Moa do Catendê, a quem devo a revelação que foi ver e ouvir o grupo de pessoas na rua cantando 'Misteriosamente o Badauê surgiu', foi morto a facadas por ter dito que votara em Haddad. O assassino, um bolsonarista apaixonado, foi encontrado quando tentava fugir. É o que acabo de ler no Yahoo!News. Moa era meu amigo e foi uma das figuras centrais na história do crescimento dos blocos afro de Salvador. Estou de luto por ele. Não olho redes sociais. Abri o Yahoo! pra chegar ao email e vi a foto de Moa, sorrindo, o que me fez parar, meio alegre de vê-lo, e ter a terrível notícia que contei aqui resumidamente. A descrição da cena está no Yahoo! As informações vieram da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Fundador do Badauê, compositor, mestre de capoeira, Moa vive na história real da cidade e deste país".

A cantora Daniela Mercury também postou no Instagram: "Que tempos são esses? Mestre Moa, meu maior respeito pelo senhor. Morreu lutando contra o que sempre lutou: a intolerância. Seguiremos aqui lutando sua boa luta".

 O cantor Tatau e o presidente do bloco afro bloco Ilê Aiyê, Antonio Carlos dos Santos, o "Vovô do Ilê", estiveram presentes no sepultamento. "Os maiores cantores do país gravaram Moa: Caetano Veloso, Gilberto Gil, dentre outros como Firmino de Itapuã. Então, ele deixou uma lacuna enorme.", disse Vivaldo Rodrigues Conceição, o Mestre Boa Gente, colega de Moa.

Tatau falou, sobre Mestre Moa: "Um grande líder da comunidade da música, criador de um dos nossos maiores afoxés [Badauê]. Um amigo, parceiro e querido por todo mundo. Ele leva consigo uma parte da nossa cultura mas deixa, no entanto, um legado maravilhoso não só na música, mas na vida".

Um grupo de capoeiristas se reuniu no local e cantou canções ao toque de berimbaus para lembrar a importância de Moa para a capoeira, expressão cultural brasileira que mistura arte marcial, esporte, cultura popular e música e que foi desenvolvida no Brasil por descendentes de escravos africanos.

O assassino 

O barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana confessou à polícia ter assassinado Mestre Moa. O autor confesso do crime, contaram testemunhas em depoimento, chegou ao bar declarando voto no capitão da reserva e disse que "o Brasil precisa se livrar do PT". Paulo Sérgio afirmou à polícia que, durante a discussão, foi xingado pelo mestre de capoeira. Após a discussão, ele foi em casa e voltou com uma peixeira, que usaria para golpear a vítima. O barbeiro, que tem dois filhos e morava há dois meses no local, ingeriu bebida alcoólica desde a manhã do domingo e chegou ao bar às 23h, segundo a polícia.

Em nota, a Polícia Militar da Bahia informou que, quando foi encontrado, Paulo Sérgio estava com uma mochila com roupas para fugir. O barbeiro vai ser indiciado por homicídio e tentativa de homicídio. Ele tinha outras duas passagens pela polícia, segundo a SSP. Em 2009, ameaçou uma criança de 14 anos com uma tesoura após ser abordado pelo garoto, que pedia esmola. Em 2014, ele se envolveu em uma briga de rua.

No depoimento, Paulo Sérgio confessou ter atingido as costas e o pescoço do capoeirista. Minutos depois, à imprensa, se contradisse ao afirmar que a discussão teve a ver com uma divergência sobre futebol e não com política.

O governador reeleito da Bahia, Rui Costa, disse que pediu uma apuração rigorosa da polícia sobre o caso: "Eu pedi prioridade absoluta para elucidar esse crime, e eu espero que o segundo turno seja da paz e de respeito de opiniões".